YALE, CAMPO DE OURIQUE
Miguel Sousa Tavares (in Expresso, 29/9/2012)
«Quando o Governo subiu o IVA de 13 para 23% na restauração, António,
temendo as consequências da subida de preços no seu pequeno restaurante
de Campo de Ourique, resolveu encaixar ele o aumento...
sem o repercutir no preço das refeições. Aguentou até poder, mas mesmo
assim a clientela começou a baixar lentamente: parte dela, que lhe
assegurava umas trinta refeições ao almoço e metade disso ao jantar, era
composta por funcionários públicos, que trabalhavam ali ao lado e cujos
salários e subsídios tinham diminuído, com a medida destinada a
satisfazer as condições do "ajustamento" da economia.
Quando
reparou que Bernardo, um cliente fiel e diário, tinha passado a
frequentar os seus almoços apenas três vezes por semana, António tomou
aquilo como sinal dos tempos que ai vinham: sem outra alternativa,
despediu a ajudante de cozinha, ficando apenas ele e a mulher no serviço
de balcão e mesas e, lá dentro, um cozinheiro sem ajudante. Mas a
seguir notou que também Carolina e Deolinda, que vinham almoçar umas
três vezes por semana, agora vinham apenas uma e pouco mais comiam do
que saladas ou ovos mexidos. Em desespero, teve de subir os preços e
Eduardo, um reformado cuja pensão tinha diminuído, desapareceu de vez.
Foi forçado a cortar drasticamente nas compras a Francisco, o seu
fornecedor de peixe, e a atrasar-lhe os pagamentos: com cinco outros
restaurantes, seus clientes, na mesma situação, Francisco viu o seu
lucro reduzido a zero e optou por fechar a sua pequena empresa e
inscrever-se no Fundo de Desemprego.
Mais tarde, quando Gaspar,
o ministro das Finanças, anunciou mais um aumento do IRS e declarou que
o "ajustamento" não se faria através do consumo interno, também
Bernardo desapareceu para sempre e, depois de três meses sentado na sala
vazia, dando voltas a cabeça com a mulher e tendo ambos concluído que
já era tarde para emigrarem, António tomou a decisão mais triste da sua
vida, encerrando o restaurante Esperança de Campo de Ourique e indo os
dois engrossar também o rol dos desempregados a conta do Estado.
Apesar de ter gasto parte, agora importante, das suas poupanças de anos
a anunciar o trespasse, António não conseguiu que ninguém lhe ficasse
com o estabelecimento e não lhe restou alternativa senão entrega-lo ao
senhorio Henrique, para não ter de pagar mais rendas. Quando desabou,
demolidor, o novo aumento do IMI, já Henrique tinha desistido de
conseguir alugar o espaço ou mesmo vender o imóvel: não pagou e deixou
que as Finanças lhe levassem o prédio.
Assim se concluiu, neste
pequeno microcosmos económico de Campo de Ourique, o processo de
"ajustamento" da economia portuguesa: vários trabalhadores reconvertidos
a marmita, cinco outros desempregados, duas pequenas empresas
encerradas e um senhorio desprovido da sua propriedade.
Nessa
altura, Gaspar, Rufus e Selassie deram-se conta, com espanto, de várias
coisas que não vinham nos livros: que, apesar de aumentarem
sistematicamente a carga fiscal, podia acontecer que a receita do Estado
diminuísse; que os sacrifícios sem sentido implicavam mais recessão e a
recessão custava mais caro ao Estado, sob a forma de mais subsídios de
desemprego a pagar; que uma e outra coisa juntas não tinham permitido,
ao contrário das suas previsões, diminuir o défice ou a dívida do
Estado; e que o que mantinha o país a funcionar não eram as grandes
empresas e grupos económicos protegidos, nem sequer os 7% de empresas
exportadoras, mas sim os 93% de empresas dirigidas ao mercado interno,
que respondiam pela esmagadora maioria dos empregos e atendiam as
necessidades da vida corrente das pessoas comuns.
E, passeando
melancolicamente nos jardins de Yale, numa chuvosa manhã de
Thanksgiving, Rufus e Selassie deram com um velho cartaz colado a uma
parede, desde os tempos da primeira campanha eleitoral de Bill Clinton:
"É a economia, estúpidos!"»